“Sinto um grupo focado; parece que são viciados em querer ganhar”
Cinco vitórias consecutivas na Liga, a última das quais em Alvalade, diante do Sporting, não alteraram a ambição nem o sentido de responsabilidade do Académico de Viseu. No regresso ao campeonato, depois da derrota na Taça da Liga, frente ao FC Porto, Bruno Pinheiro garante encontrar um plantel imune à euforia e determinado em prolongar a melhor sequência de resultados da história do clube no principal escalão do futebol português. Na antevisão à receção ao Rio Ave, este domingo, no Fontelo, para a 10.ª jornada, o treinador dos Viriatos destacou a mentalidade competitiva do grupo, rejeitou qualquer cenário de relaxamento e reafirmou que a manutenção continua a ser a prioridade. Com a possibilidade de alcançar a sexta vitória consecutiva e chegar aos 20 pontos, Bruno Pinheiro prefere valorizar o trabalho diário, a evolução coletiva e a consciência de que, apesar do arranque histórico, a temporada ainda está longe de estar decidida.
Se o Académico está preparado para alcançar o feito da sexta vitória consecutiva na Liga.
Esperamos bem que sim, obviamente. O Rio Ave também vem para fazer pela vida, para lutar pelos três pontos. Obviamente, nós também os queremos. Vamos fazer tudo para que caia para o nosso lado. O Rio Ave é uma equipa à qual é difícil de roubar a bola, pela mobilidade que permite aos seus jogadores, nomeadamente aos dois médios defensivos e aos dois laterais, que estão sempre projetados. Dificulta bastante a pressão aos adversários, torna difícil recuperar a bola em zonas mais altas do campo. Defensivamente, alguma curiosidade para saber se vão manter o que têm feito. Temos sentido nos últimos tempos já algumas adaptações por parte dos adversários para tentar contrariar a nossa saída de bola. Portanto, não tendo tanta certeza no que vão fazer defensivamente, ofensivamente, creio que irão manter aquela dinâmica dos médios e dos laterais, o que nos vai dificultar a vida. Mas temos de nos preparar oara ter sucesso também nesse momento do jogo.
Como é passar de dois jogos com o nível de dificuldade de Sporting e FC Porto, para um jogo contra o Rio Ave, que é a defesa mais batida do campeonato.
Com três jogos na mesma semana não dá muito tempo para pensar em coisas que não sejam realmente o foco do jogo. Aquilo em que nos focamos é nos nossos princípios de jogo e, digamos, afiná-los em função daquilo que esperamos que seja o adversário. Afinamos os nossos princípios ao adversário, de modo a ter um plano de jogo que nos permita recuperar as bolas o mais rapidamente possível e que nos permita ofensivamente encontrar jogadores que possam ter mais tempo e espaço para poder desequilibrar o jogo ofensivamente. Portanto, não fazemos comparações ou análises em função dos outros jogos, apenas completamos essas análises para ver o que estamos a fazer de bem e mal de acordo com os nossos princípios. A partir daí, é encaixar esses princípios no próximo adversário e definir o melhor plano de jogo possível para levar o jogo de vencida.
Se existe perigo de o plantel relaxar na sequência da série de resultados que está a realizar.
Não. Neste grupo não sinto isso. Honestamente. Eu sei o que está a dizer, eu próprio já senti isso na pele no passado, mas a verdade é que não sinto esse relaxar, essa descompressão nestes jogadores. Sinto um grupo motivado, um grupo focado; parece que são viciados em querer ganhar; é o que nós queremos, que sejam extremamente competitivos; sinto que o grupo tem esse perfil, essa característica de estar sempre ligado. Podemos perder o jogo com o Rio Ave porque o Rio Ave tem qualidade individual, tem muita qualidade individual. Acredito que, com o Vasco Seabra, com mais uma semana de trabalho, terão uma melhoria coletivamente. Mas, independentemente do resultado, acredito que a equipa vai estar altamente motivada, competitiva, não acredito no sentimento de relaxamento por parte dos jogadores do Académico. Nem por parte do seu staff.
Se a sequência de vitórias e o triunfo em Alvalade podem mexer com o ego dos jogadores
Mais uma vez, não sinto isso, até lhe posso aqui passar aqui uma, uma inconfidência. A seguir ao jogo Alverca até levei o meu filho ao balneário e o que ele me destacou foi: "Pai, mas eles não festejaram a vitória?" Não aconteceu, essa euforia que menciona não existe. O grupo é consciente das suas qualidades, das suas limitações, somos bastante conscientes da nossa realidade, sabemos que a época vai ser difícil. Obviamente temos estado a ganhar jogos, o que nos ajuda bastante, o que dá confiança, mas sabemos que historicamente nas segundas voltas os pontos são muito mais caros, sabemos que os adversários, quando algum clube se destaca, vãi sempre criar situações diferentes do que normalmente fazem, vão trazer sempre surpresa para os jogos. Nesse sentido, acho que estamos todos muito conscientes. A vitória em Alvalade soube muito bem, ficamos muito felizes com os três pontos, mas não houve essa euforia que, se calhar, há cá fora, nomeadamente nos adeptos, e que é normal; estamos em posições diferentes e do lado cá temos noção de que estamos longe de termos a época feita; estamos focados e muito felizes e satisfeitos pelo resultado em Alvalade, mas sem qualquer euforia.
À décima jornada o Académico pode somar 20 pontos. A continuar nesta senda de resultados, pode chegar muito longe…
Sim, eu sei o que está a dizer, e é legítimo toda a gente pensar nisso. Mas o que lhe posso dizer é o pensamento do lado cá. Nem sequer sei o lugar em que estamos na tabela, não olho para a tabela classificativa, para os pontos… sei que temos cinco vitórias e dois empates, mas não olho para essas coisas. É muito cedo eo foco está no processo. Muita coisa vai ainda acontecer durante o campeonato. O que lhe posso dizer é que estamos a trabalhar, sentindo-nos bem uns com os outros, com um grupo motivado, um grupo trabalhador, sempre disse isso, um grupo muito focado na tarefa; os resultados têm sido consequência desse foco, desse, dessa vontade de trabalhar e também da qualidade que todos nós temos. No dia em que a manutenção estiver matematicamente assegurada, aí acredito que irei fazer essa reflexão: ‘o que é que podemos fazer mais?’ E havendo mais para fazer, posso-lhe garantir que nesse dia o discurso vai mudar. Mas hoje não há lugar a campeões, não há descidas, há apenas bons inícios de campeonato ou maus inícios de campeonato. Nós, graças a Deus, estamos num bom início de campeonato; e queremos acabar o campeonato tal como o estamos a começar, a ganhar jogos.
Se o Académico, cada vez mais conhecido pelos adversários, ainda pode surpreender.
Sinto que há sempre uma adaptação do adversário, nomeadamente no processo defensivo. Lembro-me, por exemplo, o Vitória de Guimarães, que veio de uma forma diferente, muito mais agressivo do que era habitual. Tivemos agora o Porto, claramente homem a homem. Portanto, sinto que começa a haver essa adaptação, essa preocupação dos adversários em tentar contrariar o nosso jogo ofensivo. Acho que é normal, eu como treinador faço exatamente o mesmo quando sinto que os adversários têm determinadas qualidades, tentamos tudo para contrariar essas qualidades. Agora, acho que temos mais para dar, acho que temos o mesmo para dar, mas de formas diferentes e em função do que o adversário nos apresentar. O segredo é ser capaz de ser rápido a identificar o que é que muda e interpretar, depois, dentro dos nossos princípios, onde é que queremos explorar os espaços. Cada vez mais esta ideia de jogo é uma ideia de jogo que leva tempo; os jogadores têm que estar a ler constantemente o jogo, não é só passar a bola de uma forma padronizada ou automatizada, mas sim em função de comportamentos que o adversário tenha, o que leva muito tempo, é preciso vivenciar, é preciso errar… lembro-me do jogo aqui com o Santa Clara, onde, na segunda parte, apesar de termos estado por cima do Santa Clara, e de termos feito a segunda parte quase toda no meio-campo ofensivo, podíamos estar mais dois dias a jogar e não faríamos golos, porque a equipa não estava capaz de interpretar o jogo. Com esse erro pudemos melhorar nos jogos seguintes. Portanto, é normal que, em função do que nos seja apresentado, possa aparecer algo que ainda não tenhamos apanhado pela frente; e que dará mais trabalho.